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Mística e Espiritualidade

A ESPIRITUALIDADE DAS MONTANHAS

Maria Conceição de Lacerda[1]

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Por maior que seja a distância a que vislumbramos os cumes das altas montanhas, nós sentimos instintivamente que, no plano físico, evidentemente, mas sobretudo no plano espiritual, as montanhas representam uma ligação entre a terra e o céu. Uma grande sabedoria presidiu à formação das montanhas e a sua localização nunca se deve ao acaso. (OMRAAM MIKHAËL AÏVANHOV, 2016) E esta sabedoria é a Santíssima Trindade. A cada uma é atribuída uma determinada função, por isso elas são todas diferentes na forma, no volume e na altitude. Os seus cumes erguem-se como antenas destinadas a irradiar ou a captar ondas de frequências diferentes, criando assim cada uma certas condições favoráveis às atividades da nossa alma e do nosso espírito. E todos nós temos interiormente montanhas para escalar a fim de entrarmos em comunicação com o Céu.

Por isso é tão importante para a nossa vida espiritual compreendermos o que significa a palavra “cume”.  Um cume é, em termos de topografia, o ponto de uma superfície que é mais elevado em altitude que todos os pontos imediatamente adjacentes a ele. Matematicamente, é o ponto mais elevado de um terreno. Os termos cimo, cimeira, cúmulo, cúpula, topo, ápice, apogeu, auge, clímax ou pico são seus sinônimos.

Friedrich Nietzsche, o filósofo defensor da vontade de poder, escreveu nas montanhas isoladas de Engadine. O que a minha vontade toda quer é voar, voar para ti!  Para algumas pessoas estas palavras poderão não passar de efusões líricas. Para outras elas podem conter tanto o sentido íntimo da atitude espiritual heroica, o espírito do que é ação, como da disciplina do autocontrole implacável. O templo deste espírito é a majestade primordial dos cumes, os glaciares, as fendas e abismos de gelo, e o céu azul sem limites.  Neste contexto os cumes montanhosos e os cumes espirituais convergem numa simples e ainda assim poderosa realidade.

Eu pergunto: Você chegou aqui no topo da montanha? e te digo: Fiquei um tempo contemplando a bela paisagem e depois desça. Quando atingimos o cume de uma montanha, o único caminho possível é o da descida. O mesmo ocorre com aqueles que desejam chegar ao topo, serem os melhores, e se sentirem realizados com uma posição de superioridade, seja social ou qualquer outra. Esses chegam ao ponto mais alto, mas não ficam satisfeitos. Assim que atingem o pico do sucesso, o único caminho possível é o da descida. Por isso, ninguém jamais deve estabelecer um objetivo máximo para a tua existência, pois sempre há algo além. Aprende esta importante lição em tua vida.

ESCALAR MONTANHAS: A NOSTALGIA DAS ALTURAS

Muitos gostam de caminhar pelas montanhas, outros de escalar as mais altas. Por que os alpinistas se sentem atraídos pelos cumes, por galgar alturas cada vez maiores? Trata-se de superar os próprios limites ou há uma simbologia oculta por trás disso? Quem já escalou montanhas conhece a sensação de sentir-se pequeno diante da imensidão de um gigante. O desafio atrai o alpinista. Ele sabe que terá que deixar para trás o que é inferior e todo peso inútil. E que, com força e perseverança, conseguirá atingir seu objetivo.

Para a maioria das culturas e crenças a morada de Deus desde o início dos tempos, é a montanha, a montanha é um símbolo sagrado. Na Grécia antiga, o Olimpo era a morada de Zeus e os demais deuses do panteão helênico. O monte Parnasso era considerado o berço da humanidade. Em todos os países e continentes há montes sagrados. Na Índia, o monte Neru é tido como “o centro do mundo”. Tanto para os hindus como para os budistas, o monte Kailash, no Himalaia, é o centro do universo.

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Na África, kilimanjaro – a montanha mais alta do continente – é venerado há gerações. Na língua da tribo wachagga, que vive nas suas imediações, a palavra significa “Casa de Deus”. Para os wachagga, o cume do Kilimanjaro está além de toda a temporalidade. Os montes bíblicos A Bíblia contém muitas referências a montanhas. Moisés recebeu de Deus as tábuas da lei numa montanha. Foi num monte que Jesus reuniu seus discípulos para transmitir-lhes o sermão da montanha.

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A via crucis de Cristo culminou no Calvário ou Gólgota, que significa “lugar das caveiras”. Este nome indica o significado simbólico da montanha para o processo espiritual do homem: o lugar onde morre a forma e se conquista a eternidade.

Embora os mitos já não tenham o mesmo significado no mundo atual, as alturas continuam exercendo uma forte atração. Sempre atrás de seus objetivos, o homem é como um alpinista: procura atingi-los como quem atinge um cume, para destacar-se e ampliar o próprio horizonte. No entanto, as experiências no mundo da matéria levam até um limite. E ele escolhe a próxima montanha, e traça os próximos objetivos, sem nunca atingir o ponto mais alto do mundo ou da vida.

A subida para o homem voltado às questões espirituais, a montanha serve de orientação, ela é um local de força, um ponto de encontro com o Altíssimo. “Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro”.  (Salmo, 121)– este conhecido versículo descreve a ligação entre o ser humano e a montanha. O homem a que este salmo se refere sabe que está muito distante das alturas. A montanha que toca o céu é símbolo da força celestial mais elevada, que tudo abarca.

O ponto mais elevado está muito acima de tudo que é inferior. E, no entanto, a senda que leva a ele começa diretamente diante de quem eleva seus olhos aos montes e pergunta: “O que posso fazer, para chegar a Ti?” A resposta do monte é simples: “Começar a subida”.

A senda para o alto Subir a montanha interiormente nada mais é do que desenvolver uma consciência para a experiência espiritual. Quando alguém começa sua subida interior à montanha, pode sentir alegria e notar que recebe força, mas também passará por fases de cansaço e dúvida. Para Neuza Soliz, aluna da Escola da Rosacruz Áurea, se perseverar, sempre contará com a força auxiliadora das alturas. Uma nova clareza há de acompanhá-lo, dando-lhe uma ampla visão do mundo; perceberá sua vida, então, de uma perspectiva completamente diferente. Com tal confiança, poderá dar os últimos passos até o cimo, a morada de Deus, que reconhecerá como um lugar em si mesmo, nas profundezas do seu próprio ser. E lá no topo compreenderá que o inferior está ligado ao mais alto, que o homem está ligado ao divino. Neste momento, uma nova escalada poderá ter início, pois a montanha sagrada é a meta, mas, ao mesmo tempo, o início da longa caminhada de retorno a Deus. (SOLIZ, 2014)

No Oriente Médio, os montes sagrados do Sinai, Garizin na Samaria, o Moriah de Jerusalém e o mais famoso para os cristãos: o Monte Calvário, são alguns de centenas que inspiram a tradição judaico-cristã e o islã. Os gregos têm o Olimpo e Roma as sete colinas sagradas. Esse fascínio hereditário dos povos por se inspirar e refazer na espiritualidade da montanha veio de além mar pelos nossos pedagogos açorianos, alemães, italianos, franceses, espanhóis e árabes.

Desde menino já cantávamos: “Subiremos montanhas sagradas, colinas suaves do amor cristão!”,ou, com Roberto Carlos: “Eu vou subir a montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar; vou pedir que as estrelas não parem de brilhar, que as crianças não deixem de sorrir e que os homens jamais se esqueçam de agradecer!”

Os nossos povos da Ameríndia, do Alaska à Terra do Fogo, passando pelas pirâmides maio-astecas, pelos mestres espirituais dos povos andinos do Alto Peru e esse baixo andino amazônico onde vivemos  também buscavam sentidos para bem viver e conviver. Cerca de 900 povos se alimentavam da espiritualidade em seus montes sagrados.

Desde 1999, alguns alunos da Unisul tiveram um cicerone Guarani para escalar o Morro dos Ancestrais, o Morro dos Cavalos. Desde 2002, tive a graça de ver vários Karaí acompanharem jovens aqui da Universidade em Casas de Reza aos pés da Pedra Branca. Os velhos xamãs testemunham que também aqui na montanha, os seus ancestrais vinham se encontrar com Deus.

A DIMENSÃO DO PROFUNDO: O ESPÍRITO E A ESPIRITUALIDADE

O ser humano não possui apenas exterioridade que é sua expressão corporal. Nem só interioridade que é seu universo psíquico interior. Ele vem dotado também de profundidade que é sua dimensão espiritual. (BOFF, 2003) O espírito não é uma parte do ser humano ao lado de outras. É o ser humano inteiro que por sua consciência se percebe pertencendo ao Todo e como porção integrante dele. Pelo espírito temos a capacidade de ir além das meras aparências, do que vemos, escutamos, pensamos e amamos.  Podemos apreender o outro lado das coisas, o seu profundo.  As coisas não são apenas ‘coisas’. O espírito capta nelas símbolos e metáforas de uma outra realidade, presente nelas mas que não está circunscrita a elas, pois as desborda por todos os lados. Elas recordam, apontam e remetem à outra dimensão a que chamamos de profundidade.  (BOFF, 2003)

Assim, uma montanha não é apenas uma montanha.  Pelo fato de ser montanha, transmite o sentido da majestade.  O mar evoca a grandiosidade, o céu estrelado, a imensidão, os vincos profundos do rosto de um ancião, à dura luta da vida e os olhos brilhantes de uma criança, o mistério da vida.  É próprio do ser humano, portador de espírito, perceber valores e significados e não apenas elencar fatos e ações.  Com efeito, o que realmente conta para as pessoas, não são tanto as coisas que lhes acontecem mas o que elas significam para suas vidas e que tipo de experiências marcantes lhes proporcionaram.

Tudo que acontece carrega, existencialmente, um caráter simbólico, ou podemos dizer até sacramental. Já observava finamente Goethe: “tudo o que é passageiro não é senão um sinal” (Alles Vergängliche ist nur ein Zeichen”). É da natureza do sinal-sacramento tornar presente um sentido maior, transcendente, realizá-lo na pessoa e faze-lo objeto de experiência. Neste sentido, todo evento nos relembra aquilo que vivenciamos e nutre nossa profundidade, vale dizer, nossa espiritualidade.  (BOFF, 2003)

É por isso que enchemos nossos lares com fotos e objetos amados de nossos pais, avós, familiares e amigos; de todos aqueles que entram em nossas vidas e que tem significado para nós.  Pode ser a última camisa usada pelo pai que morreu de um enfarte fulminante com apenas 54 anos, o pente de madeira da avó querida que faleceu já há anos ou a folha seca dentro de um livro, enviada pelo namorado cheio de saudades. Estas coisas não são apenas objetos; são sacramentos que nos falam para o nosso profundo, nos lembram pessoas amadas ou acontecimentos significativos para nossas vidas.

O espírito nos permite fazer uma experiência de não-dualidade, tão bem descrita pelo zenbudismo. “Você é o mundo, é o todo” dizem os Upanishads da Índia enquanto o guru aponta para o universo.  Ou “Você é tudo” como muitos yogis dizem.  O Reino de Deus (Malkuta d’Alaha ou ‘os Princípios Guias do Todo) estão dentro de vós” proclamou Jesus.  Estas afirmações nos remetem a uma experiência viva ao invés de uma simples doutrina.

As religiões vivem desta experiência espiritual. Elas são posteriores a ela. Articulam-na em doutrinas, ritos, celebrações e caminhos éticos e espirituais.  Sua função primordial é criar e oferecer as condições necessárias para permitir a todas as pessoas e comunidades de mergulharem na realidade divina e atingir uma experiência pessoal do Espírito Criador. Infelizmente muitas delas se tornaram doentes de fundamentalismo e de doutrinalismo que dificultam a experiência espiritual.

Esta experiência, precisamente por ser experiência e não doutrina, irradia serenidade e profunda paz, acompanhada pela ausência do medo.  Sentimo-nos amados, abraçados e acolhidos pelo Seio Divino.  O que nos acontece, acontece no seu amor.  Mesmo a morte não nos mete medo; é assumida como parte da vida, como o grande momento alquímico da transformação que nos permite estar verdadeiramente no Todo, no coração de Deus. Precisamos passar pela morte para viver mais e melhor (BOFF, 2003).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir de sua experiência espiritual os místicos afirmam que As montanhas e os vales têm as suas correspondências na vida interior. Os vales, onde correm ribeiros e rios, representam a fertilidade e, portanto, a abundância, a generosidade, a bondade. É nos vales, e não nos cumes, que existem prados, jardins, frutos, flores, cidades e os seus habitantes. Nos altos cumes, encontram-se rochas, gelo, aridez.

Então o convite final é…

Estás se sentindo solitária? Descei até ao vale, onde reina a abundância, onde o coração se manifesta, onde correm as águas do amor. O saber que adquiristes nos cumes, graças ao vosso intelecto, deve fundir-se para formar regatos, rios, e fertilizar os vales, pois há um tempo para subir e um tempo para descer: há um tempo para subir à montanha com o intelecto e um tempo para descer ao vale com o coração.

REFERENCIAS

BOFF,  Leonardo. Espiritualidade: caminho de realização. Vozes 2003.

[1] Irmã Marista, Doutora e Mestra em Antropologia pela Universidade de Salamanca, Espanha – USAL/ES (2006/2014). Bacharelado e Licenciatura em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (1994/1997). Bacharel em Ciências Religiosas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR (1990/1994).Trabalha como Coordenadora de Pesquisa na Faculdade Panamericana de Ji-Paraná – UNIJIPA, Membro do NIEX.

Por guardiadahistoria

Sou Mulher, brasileira, solteira, professora, religiosa consagrada (Católica) Antropóloga e Historiadora. Nasci quando o Brasil estava em estado de sítio, antes de completar 2 meses houve o golpe militar. Apesar de minha rebeldia, escapei do olhos, da prisão e da tortura e sobrevivi ilesa

3 respostas em “A ESPIRITUALIDADE DAS MONTANHAS”

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