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A ESPIRITUALIDADE DAS MONTANHAS

Maria Conceição de Lacerda[1]

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Por maior que seja a distância a que vislumbramos os cumes das altas montanhas, nós sentimos instintivamente que, no plano físico, evidentemente, mas sobretudo no plano espiritual, as montanhas representam uma ligação entre a terra e o céu. Uma grande sabedoria presidiu à formação das montanhas e a sua localização nunca se deve ao acaso. (OMRAAM MIKHAËL AÏVANHOV, 2016) E esta sabedoria é a Santíssima Trindade. A cada uma é atribuída uma determinada função, por isso elas são todas diferentes na forma, no volume e na altitude. Os seus cumes erguem-se como antenas destinadas a irradiar ou a captar ondas de frequências diferentes, criando assim cada uma certas condições favoráveis às atividades da nossa alma e do nosso espírito. E todos nós temos interiormente montanhas para escalar a fim de entrarmos em comunicação com o Céu.

Por isso é tão importante para a nossa vida espiritual compreendermos o que significa a palavra “cume”.  Um cume é, em termos de topografia, o ponto de uma superfície que é mais elevado em altitude que todos os pontos imediatamente adjacentes a ele. Matematicamente, é o ponto mais elevado de um terreno. Os termos cimo, cimeira, cúmulo, cúpula, topo, ápice, apogeu, auge, clímax ou pico são seus sinônimos.

Friedrich Nietzsche, o filósofo defensor da vontade de poder, escreveu nas montanhas isoladas de Engadine. O que a minha vontade toda quer é voar, voar para ti!  Para algumas pessoas estas palavras poderão não passar de efusões líricas. Para outras elas podem conter tanto o sentido íntimo da atitude espiritual heroica, o espírito do que é ação, como da disciplina do autocontrole implacável. O templo deste espírito é a majestade primordial dos cumes, os glaciares, as fendas e abismos de gelo, e o céu azul sem limites.  Neste contexto os cumes montanhosos e os cumes espirituais convergem numa simples e ainda assim poderosa realidade.

Eu pergunto: Você chegou aqui no topo da montanha? e te digo: Fiquei um tempo contemplando a bela paisagem e depois desça. Quando atingimos o cume de uma montanha, o único caminho possível é o da descida. O mesmo ocorre com aqueles que desejam chegar ao topo, serem os melhores, e se sentirem realizados com uma posição de superioridade, seja social ou qualquer outra. Esses chegam ao ponto mais alto, mas não ficam satisfeitos. Assim que atingem o pico do sucesso, o único caminho possível é o da descida. Por isso, ninguém jamais deve estabelecer um objetivo máximo para a tua existência, pois sempre há algo além. Aprende esta importante lição em tua vida.

ESCALAR MONTANHAS: A NOSTALGIA DAS ALTURAS

Muitos gostam de caminhar pelas montanhas, outros de escalar as mais altas. Por que os alpinistas se sentem atraídos pelos cumes, por galgar alturas cada vez maiores? Trata-se de superar os próprios limites ou há uma simbologia oculta por trás disso? Quem já escalou montanhas conhece a sensação de sentir-se pequeno diante da imensidão de um gigante. O desafio atrai o alpinista. Ele sabe que terá que deixar para trás o que é inferior e todo peso inútil. E que, com força e perseverança, conseguirá atingir seu objetivo.

Para a maioria das culturas e crenças a morada de Deus desde o início dos tempos, é a montanha, a montanha é um símbolo sagrado. Na Grécia antiga, o Olimpo era a morada de Zeus e os demais deuses do panteão helênico. O monte Parnasso era considerado o berço da humanidade. Em todos os países e continentes há montes sagrados. Na Índia, o monte Neru é tido como “o centro do mundo”. Tanto para os hindus como para os budistas, o monte Kailash, no Himalaia, é o centro do universo.

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Na África, kilimanjaro – a montanha mais alta do continente – é venerado há gerações. Na língua da tribo wachagga, que vive nas suas imediações, a palavra significa “Casa de Deus”. Para os wachagga, o cume do Kilimanjaro está além de toda a temporalidade. Os montes bíblicos A Bíblia contém muitas referências a montanhas. Moisés recebeu de Deus as tábuas da lei numa montanha. Foi num monte que Jesus reuniu seus discípulos para transmitir-lhes o sermão da montanha.

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A via crucis de Cristo culminou no Calvário ou Gólgota, que significa “lugar das caveiras”. Este nome indica o significado simbólico da montanha para o processo espiritual do homem: o lugar onde morre a forma e se conquista a eternidade.

Embora os mitos já não tenham o mesmo significado no mundo atual, as alturas continuam exercendo uma forte atração. Sempre atrás de seus objetivos, o homem é como um alpinista: procura atingi-los como quem atinge um cume, para destacar-se e ampliar o próprio horizonte. No entanto, as experiências no mundo da matéria levam até um limite. E ele escolhe a próxima montanha, e traça os próximos objetivos, sem nunca atingir o ponto mais alto do mundo ou da vida.

A subida para o homem voltado às questões espirituais, a montanha serve de orientação, ela é um local de força, um ponto de encontro com o Altíssimo. “Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro”.  (Salmo, 121)– este conhecido versículo descreve a ligação entre o ser humano e a montanha. O homem a que este salmo se refere sabe que está muito distante das alturas. A montanha que toca o céu é símbolo da força celestial mais elevada, que tudo abarca.

O ponto mais elevado está muito acima de tudo que é inferior. E, no entanto, a senda que leva a ele começa diretamente diante de quem eleva seus olhos aos montes e pergunta: “O que posso fazer, para chegar a Ti?” A resposta do monte é simples: “Começar a subida”.

A senda para o alto Subir a montanha interiormente nada mais é do que desenvolver uma consciência para a experiência espiritual. Quando alguém começa sua subida interior à montanha, pode sentir alegria e notar que recebe força, mas também passará por fases de cansaço e dúvida. Para Neuza Soliz, aluna da Escola da Rosacruz Áurea, se perseverar, sempre contará com a força auxiliadora das alturas. Uma nova clareza há de acompanhá-lo, dando-lhe uma ampla visão do mundo; perceberá sua vida, então, de uma perspectiva completamente diferente. Com tal confiança, poderá dar os últimos passos até o cimo, a morada de Deus, que reconhecerá como um lugar em si mesmo, nas profundezas do seu próprio ser. E lá no topo compreenderá que o inferior está ligado ao mais alto, que o homem está ligado ao divino. Neste momento, uma nova escalada poderá ter início, pois a montanha sagrada é a meta, mas, ao mesmo tempo, o início da longa caminhada de retorno a Deus. (SOLIZ, 2014)

No Oriente Médio, os montes sagrados do Sinai, Garizin na Samaria, o Moriah de Jerusalém e o mais famoso para os cristãos: o Monte Calvário, são alguns de centenas que inspiram a tradição judaico-cristã e o islã. Os gregos têm o Olimpo e Roma as sete colinas sagradas. Esse fascínio hereditário dos povos por se inspirar e refazer na espiritualidade da montanha veio de além mar pelos nossos pedagogos açorianos, alemães, italianos, franceses, espanhóis e árabes.

Desde menino já cantávamos: “Subiremos montanhas sagradas, colinas suaves do amor cristão!”,ou, com Roberto Carlos: “Eu vou subir a montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar; vou pedir que as estrelas não parem de brilhar, que as crianças não deixem de sorrir e que os homens jamais se esqueçam de agradecer!”

Os nossos povos da Ameríndia, do Alaska à Terra do Fogo, passando pelas pirâmides maio-astecas, pelos mestres espirituais dos povos andinos do Alto Peru e esse baixo andino amazônico onde vivemos  também buscavam sentidos para bem viver e conviver. Cerca de 900 povos se alimentavam da espiritualidade em seus montes sagrados.

Desde 1999, alguns alunos da Unisul tiveram um cicerone Guarani para escalar o Morro dos Ancestrais, o Morro dos Cavalos. Desde 2002, tive a graça de ver vários Karaí acompanharem jovens aqui da Universidade em Casas de Reza aos pés da Pedra Branca. Os velhos xamãs testemunham que também aqui na montanha, os seus ancestrais vinham se encontrar com Deus.

A DIMENSÃO DO PROFUNDO: O ESPÍRITO E A ESPIRITUALIDADE

O ser humano não possui apenas exterioridade que é sua expressão corporal. Nem só interioridade que é seu universo psíquico interior. Ele vem dotado também de profundidade que é sua dimensão espiritual. (BOFF, 2003) O espírito não é uma parte do ser humano ao lado de outras. É o ser humano inteiro que por sua consciência se percebe pertencendo ao Todo e como porção integrante dele. Pelo espírito temos a capacidade de ir além das meras aparências, do que vemos, escutamos, pensamos e amamos.  Podemos apreender o outro lado das coisas, o seu profundo.  As coisas não são apenas ‘coisas’. O espírito capta nelas símbolos e metáforas de uma outra realidade, presente nelas mas que não está circunscrita a elas, pois as desborda por todos os lados. Elas recordam, apontam e remetem à outra dimensão a que chamamos de profundidade.  (BOFF, 2003)

Assim, uma montanha não é apenas uma montanha.  Pelo fato de ser montanha, transmite o sentido da majestade.  O mar evoca a grandiosidade, o céu estrelado, a imensidão, os vincos profundos do rosto de um ancião, à dura luta da vida e os olhos brilhantes de uma criança, o mistério da vida.  É próprio do ser humano, portador de espírito, perceber valores e significados e não apenas elencar fatos e ações.  Com efeito, o que realmente conta para as pessoas, não são tanto as coisas que lhes acontecem mas o que elas significam para suas vidas e que tipo de experiências marcantes lhes proporcionaram.

Tudo que acontece carrega, existencialmente, um caráter simbólico, ou podemos dizer até sacramental. Já observava finamente Goethe: “tudo o que é passageiro não é senão um sinal” (Alles Vergängliche ist nur ein Zeichen”). É da natureza do sinal-sacramento tornar presente um sentido maior, transcendente, realizá-lo na pessoa e faze-lo objeto de experiência. Neste sentido, todo evento nos relembra aquilo que vivenciamos e nutre nossa profundidade, vale dizer, nossa espiritualidade.  (BOFF, 2003)

É por isso que enchemos nossos lares com fotos e objetos amados de nossos pais, avós, familiares e amigos; de todos aqueles que entram em nossas vidas e que tem significado para nós.  Pode ser a última camisa usada pelo pai que morreu de um enfarte fulminante com apenas 54 anos, o pente de madeira da avó querida que faleceu já há anos ou a folha seca dentro de um livro, enviada pelo namorado cheio de saudades. Estas coisas não são apenas objetos; são sacramentos que nos falam para o nosso profundo, nos lembram pessoas amadas ou acontecimentos significativos para nossas vidas.

O espírito nos permite fazer uma experiência de não-dualidade, tão bem descrita pelo zenbudismo. “Você é o mundo, é o todo” dizem os Upanishads da Índia enquanto o guru aponta para o universo.  Ou “Você é tudo” como muitos yogis dizem.  O Reino de Deus (Malkuta d’Alaha ou ‘os Princípios Guias do Todo) estão dentro de vós” proclamou Jesus.  Estas afirmações nos remetem a uma experiência viva ao invés de uma simples doutrina.

As religiões vivem desta experiência espiritual. Elas são posteriores a ela. Articulam-na em doutrinas, ritos, celebrações e caminhos éticos e espirituais.  Sua função primordial é criar e oferecer as condições necessárias para permitir a todas as pessoas e comunidades de mergulharem na realidade divina e atingir uma experiência pessoal do Espírito Criador. Infelizmente muitas delas se tornaram doentes de fundamentalismo e de doutrinalismo que dificultam a experiência espiritual.

Esta experiência, precisamente por ser experiência e não doutrina, irradia serenidade e profunda paz, acompanhada pela ausência do medo.  Sentimo-nos amados, abraçados e acolhidos pelo Seio Divino.  O que nos acontece, acontece no seu amor.  Mesmo a morte não nos mete medo; é assumida como parte da vida, como o grande momento alquímico da transformação que nos permite estar verdadeiramente no Todo, no coração de Deus. Precisamos passar pela morte para viver mais e melhor (BOFF, 2003).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir de sua experiência espiritual os místicos afirmam que As montanhas e os vales têm as suas correspondências na vida interior. Os vales, onde correm ribeiros e rios, representam a fertilidade e, portanto, a abundância, a generosidade, a bondade. É nos vales, e não nos cumes, que existem prados, jardins, frutos, flores, cidades e os seus habitantes. Nos altos cumes, encontram-se rochas, gelo, aridez.

Então o convite final é…

Estás se sentindo solitária? Descei até ao vale, onde reina a abundância, onde o coração se manifesta, onde correm as águas do amor. O saber que adquiristes nos cumes, graças ao vosso intelecto, deve fundir-se para formar regatos, rios, e fertilizar os vales, pois há um tempo para subir e um tempo para descer: há um tempo para subir à montanha com o intelecto e um tempo para descer ao vale com o coração.

REFERENCIAS

BOFF,  Leonardo. Espiritualidade: caminho de realização. Vozes 2003.

[1] Irmã Marista, Doutora e Mestra em Antropologia pela Universidade de Salamanca, Espanha – USAL/ES (2006/2014). Bacharelado e Licenciatura em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (1994/1997). Bacharel em Ciências Religiosas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR (1990/1994).Trabalha como Coordenadora de Pesquisa na Faculdade Panamericana de Ji-Paraná – UNIJIPA, Membro do NIEX.

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SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA E DIA DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA

No terceiro domingo de agosto, na Solenidade da Assunção de Maria a Igreja no Brasil celebra o Dia Nacional da Vida Religiosa Consagrada. Considerando este evento escrevo esta mensagem de saudação a todas as religiosas e todos os religiosos do país e eu mesma comemoro o fato de pertencer a este grupo numeroso e profético, espalhado por todos os estados e quase todos os municípios, em vários nos assentamentos e acampamentos do MST, em muitas aldeias indígenas e em algumas comunidades quilombolas, e, principalmente nas periferias das grandes cidades.

Começo compartilhando a palavra que é ouvida hoje em todas as comunidades católicas.

1WOMAN-WITH-CHILD APARECEU NO CÉU UM GRANDE SINAL.

Leitura do Livro do Apocalipse de São João 11,19a; 12,1-6a.10ab

Abriu-se o Templo de Deus que está no céu e apareceu no Templo a arca da Aliança. Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava em dores de parto, atormentada para dar à luz. Então apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre as cabeças, sete coroas. Com a cauda, varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra. O Dragão parou diante da Mulher que estava para dar à luz, pronto para devorar o seu Filho, logo que nascesse. E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o Filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar. Ouvi então uma voz forte no céu, proclamando: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus, e o poder do seu Cristo”.

Ester_Biblia Salmo – Sl 44(45),10b c. 11.12ab.16 (R. 10b) – À VOSSA DIREITA SE ENCONTRA A RAINHA, COM VESTE ESPLENDENTE DE OURO DE OFIR.

10b As filhas de reis vêm ao vosso encontro, e à vossa direita se encontra a rainha com veste esplendente de ouro de Ofir.

11.Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto: “Esquecei vosso povo e a casa paterna!

12aQue o Rei se encante com vossa beleza! Prestai-lhe homenagem: é vosso Senhor!

16 Entre cantos de festa e com grande alegria, ingressam, então, no palácio real”.

ressurreição ENTREGARÁ A REALEZA A DEUS-PAI, PARA QUE DEUS SEJA TUDO EM TODOS.

Leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 15,20-26.28

Irmãos: Na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. A seguir, será o fim, quando ele entregar a realeza a Deus-Pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força. Pois é preciso que ele reine até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. E, quando todas as coisas estiverem submetidas a ele, então o próprio Filho se submeterá àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos.

visitacao_nossa_senhora_maria_isabel COMO POSSO MERECER QUE A MÃE DO MEU SENHOR VENHA VISITAR-ME?

+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 1,39-56

Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu”.

maria no magnificat Maria cantou:

“A minha alma engrandece o Senhor, e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador, pois, ele viu a pequenez de sua serva, eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita. O Poderoso fez por mim maravilhas e Santo é o seu nome! Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam. Demonstrou o poder de seu braço, dispersou os orgulhosos. Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou. De bens saciou os famintos despediu, sem nada, os ricos. Acolheu Israel, seu servidor, fel ao seu amor, como havia prometido aos nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre”. Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO

Praça da Liberdade, Castel Gandolfo Queridos irmãos e irmãs!

No final da Constituição sobre a Igreja, o Concílio Vaticano II deixou-nos uma meditação belíssima sobre Maria Santíssima. Destaco apenas as expressões que se referem ao mistério que celebramos hoje. A primeira é esta: «A Virgem Imaculada, preservada imune de toda a mancha de culpa original, terminado o curso da vida terrena, foi elevada ao Céu em corpo e alma e exaltada por Deus como Rainha» (Cost. dogm. Lumen gentium, 59). Em seguida, perto do final do documento, encontramos esta expressão: «A Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que há de se consumar no século futuro, assim também na terra brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor» (ibid., 68). À luz deste belíssimo ícone de Nossa Mãe, podemos considerar a mensagem contida nas Leituras bíblicas que acabamos de ouvir. Podemos nos concentrar em três palavras-chave: luta, ressurreição e esperança.

A passagem do livro do Apocalipse apresenta a visão da luta entre a mulher e o dragão. A figura da mulher, que representa a Igreja, é por um lado gloriosa, triunfante, e por outro ainda se encontra em dificuldade. De fato, assim é a Igreja: se no Céu já está associada com a glória de seu Senhor, na história enfrenta constantemente as provações e desafios que supõe o conflito entre Deus e o maligno, o inimigo de todos os tempos. E, nesta luta que os discípulos de devem enfrentar – todos nós, todos os discípulos de Jesus devemos enfrentar esta luta -, Maria não os deixa sozinhos; a Mãe de Cristo e da Igreja está sempre conosco. Sempre caminha conosco, está conosco. Maria também, em certo sentido, compartilha esta dupla condição. Ela, é claro, entrou definitivamente na glória do Céu. Mas isso não significa que Ela esteja longe, que esteja separada de nós; na verdade, Maria nos acompanha, luta conosco, sustenta os cristãos no combate contra as forças do mal. A oração com Maria, especialmente o Terço – atenção: o Terço! Rezais o Terço todos os dias? Mas, não sei não… [os fiéis gritam: sim!] Sério? Bem, a oração com Maria, especialmente o Terço, também tem essa dimensão “agonística”, ou seja, de luta, uma oração que dá apoio na luta contra o maligno e seus aliados. O Terço também nos sustenta nesta batalha.

A segunda leitura fala da ressurreição. O apóstolo Paulo, escrevendo aos Coríntios, insiste no fato de que ser cristão significa acreditar que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos. Toda a nossa fé se baseia nesta verdade fundamental, que não é uma ideia, mas um evento. E o mistério da Assunção de Maria em corpo e alma também está inteiramente inscrito na Ressurreição de Cristo. A humanidade da Mãe foi “atraída” pelo Filho na sua passagem através da morte. Jesus entrou de uma vez por todas na vida eterna com toda a sua humanidade, a qual ele recebera de Maria. Assim, Ela, a Mãe, que o seguira fielmente durante toda a sua vida, tinha-O seguido com o coração, entrou com Ele na vida eterna, que também chamamos de Céu, Paraiso, Casa do Pai.

Maria também conheceu o martírio da Cruz: o martírio do seu coração, o martírio da alma. Ela sofreu tanto, no seu coração, enquanto que Jesus sofria na Cruz. Ela viveu a Paixão do Filho até o fundo de sua alma. Ela estava totalmente unida com Ele na morte, e por isso foi-Lhe dado o dom da ressurreição. Cristo como primícias dos Ressuscitados, e Maria como primícias dos redimidos, a primeira daqueles “que pertencem a Cristo”. Ela é nossa Mãe, mas também podemos dizer que é nossa representante, nossa irmã, nossa primeira irmã; Ela é a primeira entre os redimidos que chegou ao Céu.

O Evangelho nos sugere uma terceira palavra: esperança. A esperança é a virtude daqueles que, experimentando o conflito, a luta diária entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, creem na Ressurreição de Cristo, na vitória do Amor. Escutamos o canto de Maria, o Magnificat: é o cântico da esperança, é o cântico do Povo de Deus no seu caminhar através da história. É o cântico de muitos santos e santas, alguns conhecidos, outros – muitíssimos – desconhecidos, mas bem conhecidos por Deus: mães, pais, catequistas, missionários, padres, freiras, jovens, e também crianças, avôs e avós; eles enfrentaram a luta da vida, levando no coração esperança dos pequenos e dos humildes. Maria diz: «A minha alma engrandece ao Senhor» – hoje a Igreja também canta a mesma coisa, e o canta em todas as partes do mundo. Este cântico é particularmente intenso, onde o Corpo de Cristo hoje está sofrendo a Paixão. Onde está a Cruz, para nós cristãos, há esperança, sempre. Se não há esperança, nós não somos cristãos. Por isso gosto de dizer: não deixeis que vos roubem a esperança. Que não vos roubeis a esperança, porque esta força é uma graça, um dom de Deus que nos leva para frente, olhando para o Céu. E Maria está sempre lá, próxima dessas comunidades, desses nossos irmãos, caminhando com eles, sofrendo com eles, e cantando com eles o Magnificat da esperança.

Queridos irmãos e irmãs, unamo-nos com todo o coração a este cântico de paciência e de vitória, de luta e de alegria, que une a Igreja triunfante com a Igreja que peregrina, ou seja, nós; que une a terra com o Céu, que une a nossa história com a eternidade, para a qual caminhamos. Assim seja.

A contribuição da Vida Religiosa consagrada na missão evangelizadora da Igreja é o nosso chamado a ser um sinal de esperança, pois a vocação brota do coração de Deus, germina na terra boa do povo fiel e na experiência do amor fraterno, sororal.

Logo no início, a mensagem informa: “ninguém pode ficar excluído da alegria do Evangelho. Por isso, Jesus, como no relato de Marcos, continua caminhando ao longo do mar da Galileia, passando pelas bancas de cobradores de impostos e subindo ao monte, para chamar os que ele quer, para estarem com ele, e enviá-los em missão. Cada discípulo (a) missionário (a) é chamado (a) por seu nome, com sua história, seus relacionamentos e compromissos, para que a alegria do Evangelho renasça sem cessar e configure um novo horizonte de esperança”.

Para Irmã Maria Inês: “toda vocação supõe um caminho ou itinerário de saída de si para centrar a própria existência em Cristo e no Evangelho”, pois “optar por um serviço concreto ao próximo significa olhar nos olhos, estender a mão e avançar com pés de peregrino (a) em direção às periferias existenciais e às novas fronteiras onde a vida mais clama”. Ela ainda lembra que “a Vida Religiosa Consagrada acredita, profundamente, no chamado do Senhor. Com fé e esperança, ela convida todos (as) a assumirem as palavras-chave: ‘falar, orar e convidar’, porque a ‘messe é grande e os/as operários (as) são poucos (as)’ (Lc 10, 2)”. (LMI)

Fonte: http://www.gaudiumpress.org/content/81430-Mensagem-pelo-Dia-da-Vida-Religiosa-Consagrada-e-divulgada-pela-CRB-Nacional Acesso em: 20 de Ago. 2017

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SER RELIGIOSA CONSAGRADA É:

Entregar-se por inteira a Deus em uma congregação;

Olhar para o passado com gratidão;

Entrar em uma rica história carismática;

Tomar consciência de como foi vivido o carisma ao longo da história, eu devo viver.

Viver o presente com paixão;

Viver numa escuta atenta daquilo que o Espírito diz;

Abraçar o futuro com esperança;

Crer que “para Deus, ‘nada é impossível’” (cf. Lc 1, 37).

Onde estiver ser sinal de alegria e de esperança;

Continuar a missão de profetas;

Criar outros espaços onde se viva a “lógica evangélica do dom, da sororedade, da fraternidade, do acolhimento, da diversidade, do amor recíproco;

Viver a espiritualidade de comunhão;

Estar nas periferias existenciais sendo comunhão vida nova e denuncia;

Ser um autêntico kairòs, um tempo de Deus rico de graças e de transformação.

 

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VIDA ESPIRITUAL EXPERIMENTANDO SER COMO JESUS NA EUCARISTIA ESPIRITUALIDADE

Maria Conceição de Lacerda*

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O grande presente de Jesus Jo 6, 51-58

Cristo nos acompanha a partir do mais profundo do nosso coração; para isso quis se fazer Eucaristia.

MINHA CARNE É VERDADEIRA COMIDA E O MEU SANGUE, VERDADEIRA BEBIDA.

+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João 6,51-58

Naquele tempo: disse Jesus às multidões dos judeus: ‘Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo’. Os judeus discutiam entre si, dizendo: ‘Como é que ele pode dar a sua carne a comer?’ Então Jesus disse: ‘Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim o que me come viverá por causa de mim. Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre.’

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FRUTO: Valorizar o dom da Eucaristia, mistério pelo qual Cristo nos acompanha íntima e proximamente.

PONTOS PARA A REFLEXÃO:

O Evangelho de hoje dá um ensinamento difícil de entender, para os judeus daquela época, e para todo homem ou mulher de qualquer tempo: Jesus anuncia que se dá a nós como comida, fazendo referência claramente ao mistério da Eucaristia, o grande presente de Deus.

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  1. O pão da vida

Na Sagrada Escritura, e em toda tradição cultural, a simbologia do pão é muito clara: representa o alimento básico que todo ser humano necessita para viver. É um modo mais concreto de dizer comida, tomando a imagem mais freqüente em todas as culturas. Cristo usa esta imagem aplicando-a à vida humana, mais além da mera subsistência biológica. Da mesma forma que toda pessoa necessita comer, se alimentar, para que seu corpo se desenvolva normalmente, igualmente toda pessoa necessita de Cristo para crescer e viver como ser humano, que ama e é amada, que conhece e é conhecida, que se relaciona com tudo o que o rodeia. Jesus Cristo, é o Ser Humano perfeito, aquele que revela plenamente aos seres humanos, levando-os à sua plenitude (Gaudium et spes 22).

  1. A melhor companhia

Jesus não é só alimento; é também nossa melhor companhia. Uma alegria compartilhada é uma alegria maior, e uma dor compartilhada é mais leve. Por isso o Senhor nos deixou uma forma de nos acompanhar no mais íntimo que sua presença como Criador do mundo. O Catecismo da Igreja Católica nos lembra que Deus está em todos os lugares; mas seu amor delicado fez com que ficasse perto de nós de um modo especial: na Eucaristia. Esta presença, esta companhia é tão íntima que nos permite tê-lo dentro do nosso coração. Já não é só um Deus que cuida para estar perto da sua criatura; nem sequer um bom amigo que está ao nosso lado. É Alguém que entra na nossa alma, que nos acompanha a partir do mais íntimo do nosso coração, desde o fundo da nossa alma.

Eucaristia

  1. Se não comerdes minha carne…

Sabemos que precisamos comer para viver, que não podemos aguentar nem um dia sem beber; conhecemos nossas limitações e fraquezas, mas no campo do espírito, na nossa relação com Deus, somos muitos esquecidos. Esquecemos que sem o alimento dos sacramentos, sem nos nutrirmos da Sagrada Escritura, a alma se enfraquece, perde força, e vai sendo invadida por uma anemia espiritual. Jesus, conhecendo nossa fraqueza, lembra-nos expressamente: Se não comerdes minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis vida em vós. Se descuidamos dos sacramentos, se acreditamos que somos tão fortes que podemos ser santos com nossas próprias forças, vamos fracassar. Sejamos humildes, simples e aproximemo-nos para receber o alimento da Eucaristia, este maravilhoso presente que Deus nos deu para nos acompanhar na nossa peregrinação por esta vida, a caminho do céu.

PROPÓSITO: Participarei com atenção da Eucaristia, vivendo com especial atenção o momento da comunhão.

Conclusão: Um detalhe particular que me tocou

A Eucaristia é uma palavra feminina, e se dá em alimento é próprio da Mulher. Durante a gravidez, por nove meses consecutivos a mulher alimenta a criança no seu útero com o seu sangue. Quando ela dá a luz, seus seios transbordam de leite, é seu corpo que continua alimentando aquela criança, e até que a criança passa a comer e beber de outras fontes o leite começa a diminuir até que desaparece. Jesus Eucarístico nos ensina a acolher a nossa feminilidade que nos torna amor tão profundo e tão fecundo que pode ser corpo dado e sangue derramado, verdadeira oblação entrega de amor.

*Doutora em Antropologia de Ibero América na Universidade de Salamanca. Atua no Centro de Educação Popular e Promoção Humana Casa de Nazaré e trabalha como Professora, Coordenadora de pesquisa e Assistente Pedagógico na UNIJIPA – Faculdade Panamericana de Ji-Paraná, uma empresa do Athenas Grupo Educacional.